domingo, 24 de julho de 2011

NO PROCESSO DE APRENDIZADO VALE MAIS O ESFORÇO DO QUE O RESULTADO?

É comum após se submeter a avaliações alguns alunos reclamarem, afirmando que se esforçaram tanto, porém não conseguiram obter uma nota satisfatória; enquanto que determinada pessoa, que menos se empenhou, foi mais bem sucedida. Isso acontece tanto em avaliações escolares quanto em concursos públicos e outros exames.


A partir dessa constatação surgem diversas ponderações, que vão desde questionamentos aos métodos de avaliação adotados até observações quanto à condição sócio-econômica de cada avaliando.

Segundo penso, o esforço é apenas um meio para se chegar ao resultado. Os educadores não podem ter o empenho dos alunos como objetivo final, pois se não houver resultados satisfatórios a missão de ensinar não terá sido devidamente cumprida. Aliás, o esforço deve ser direcionado no caminho correto, pois se não for, pouco adiantará.

Tenho em mente que a capacidade individual de absorver conhecimentos é diferente em cada ser humano. Desse modo, cabe a cada um se conhecer e escolher os melhores métodos de estudo (e nesse ponto é muito importante a orientação do educador). E justamente os resultados obtidos é que dirão se os métodos adotados estão corretos ou não.

Sobre assunto similar ao ora aduzido refiro interessante artigo, de autoria de GUSTAVO IOSCHPE, publicado na Revista Veja, ed. Abril, edição 2225, ano 44 – nº 28, de 13 de julho de 2011, pp. 108-112. Citado articulista afirma que a visão tendente a achar que o esforço importa mais que o resultado “[…] pode dar algum conforto para os tropeços que alguém sofre em sua vida pessoal, mas na vida pública de um país, especialmente quando lidamos com gente com dificuldades, acho que devemos ser radicais: o esforço é absolutamente irrelevante, só o que importa é o resultado. Nesse caso, o aprendizado dos alunos. Tanto para o aluno quanto para o país. Porque aquele aluno, quando sair da escola e for buscar um emprego, não vai poder dizer: ‘Eu não sei tabuada, não falo inglês nem sei o que é pretérito imperfeito, mas o senhor deveria me contratar, porque eu nasci numa favela, meu pai me abandonou quando eu tinha 2 anos’. Da mesma forma, se exportarmos um produto mais caro e de menor qualidade que seus concorrentes, não poderemos esperar que o consumidor final decida comprar o nosso produto por ele conter uma etiqueta que diga: ‘Atenção, produto fabricado em país que só aboliu a escravidão em 1888 e foi vitimado por secular colonialismo predatório’. O que importa é aquilo que o aluno aprende”.

De pronto alerte-se que a visão do autor mencionado não é de que o estudante mais carente tenha que ser desprezado à sua própria sorte. Pelo contrário, é de que ele deve se esforçar e os educadores devem lhe proporcionar condições de superar a desvantagem que possui decorrente de sua condição sócio-econômica; pois a realidade (seja em empregos da iniciativa privada ou em cargos públicos) é que tanto ricos quanto pobres concorrerão, em regra, em igualdade de condições. O fato da pessoa fazer uma observação na prova de um concurso público ou em uma ficha de avaliação de uma empresa privada dizendo que sua vida foi difícil, e que muito se esforçou para estudar, de nada adiantará. Para conseguir o emprego, seja o candidato rico ou pobre, tem que apresentar capacidade para bem desempenhar as atividades que lhes são inerentes.

Essa verdade, o mais cedo possível tem que ser encarada pelos alunos, educadores e governantes brasileiros; e partindo daí tentar se encontrar soluções rapidamente, pois o país começa a apresentar dados preocupantes na área de educação. São muitos formados e poucos qualificados. As escolas (aí se incluindo todos os níveis de ensino) vivem o paradigma de que para aprovar o mais importante é o esforço, porém para o mercado a realidade é outra: ninguém vai contratar alguém simplesmente porque tem um diploma.

Ressalta também GUSTAVO IOSCHPE, no mesmo artigo já citado, que: “A China mostra que a ideia de que não pode haver educação de alto nível em cenário de pobreza é balela: no último Pisa, o teste de educação mais conceituado do mundo, sua província de Xangai, que tem nível de renda per capita muito parecido com o brasileiro (11.118 doláres versus 10.816 dólares do Brasil), apareceu em primeiro lugar em todas as disciplinas estudadas, enquanto o Brasil não ficou nem entre os cinquenta melhores. Relatório recente da OCDE (disponível em twitter.com/gioschpe) mostra que nosso país também fica na rabeira na recuperação de seus alunos pobres: aqui, só 22% dos alunos de baixa renda têm performance alta, enquanto na média dos países da OCDE esse número é de 31%, e na China é de 75%. Nosso problema não é termos alunos pobres: é que nosso sistema educacional não sabe como ensiná-los, e está mais preocupado em encontrar meios de continuar não enxergando essa deficiência  do que em solucioná-la”.

Por todo o exposto, nota-se que é necessário um imediato repensar das premissas que têm norteado a atuação dos educadores e dos governantes brasileiros. Não se pode mais justificar a má qualidade da educação com a pobreza da maioria dos alunos e com a insuficiência de recursos para investir na área. Tais fatores são certamente importantes, porém não podem justificar um conformismo com a situação que beira ao caos. Necessário tentar se fazer melhor com os meios já disponíveis, pois, segundo demonstrado, a cultura de que mais vale o esforço do que o resultado, só tem espaço entre os muros escolares.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente aqui